Tambores.
Hoje eu sai para me encarar.
Meu coração bateu.
Tambores.
Sempre é assim,
Primeiro sente-se o cheiro, depois ver-se a caça,
Ou o caçador, não sei bem qual dos papéis estava representando naquela noite,
O fato é que farejei o rastro- nas pessoas que chegavam- que ele estava por vir.
Sim,ele veio, meu olfato de fêmea não me enganou. Tenho tentado acreditar mais nos meus sentidos.
Meia palavra cantada. Sorrisos forçados. Ou não? Eram tão verdadeiramente sínicos e falsos nossos sorrisos que saiam espontâneos. Ambos fingiam uma felicidade, um bem estar, e um perfeito esquecimento da ferida que há pouco nos sangrava silenciosamente. Transparecíamos como se houvesse transcorrido muito mais tempo no tempo da virada de uma única pagina do calendário.
Distância.
Um momento de reflexão, intuição, e impulso me vêem concomitantes, em poucos segundos. A decisão deve ser tomada. Outra coisa que venho aprendendo é que, definitivamente, não temos como fugir das escolhas. Temos que optar por alguma coisa, e chegar até o final, mesmo que depois nós tivermos que voltar, com mais frio, fome e feridas
Optei por me desafiar.
Hoje sai de casa para me encarar.
Quando dei por mim, era transporta sobre duas rodas,
Sentada no varão da bicicleta...
...seu nariz no meu cangote, seu olhar no meu decote.
Trocamos palavras como antes. Naquele momento realmente voltei ao nosso passeio no passado, pelas ruas do centro da cidade. Pedaladas por entre muros encardidos. “A vida é uma oportunidade para aprender a amar”, continuava escrito. ele sempre lia essa frase quando voltava para casa, quando prestava atenção. Então, quando se lembrava, lembrava-se de mim.
Senti que pedalava lentamente, como se quisesse estender aquele momento que me tinha assim tão perto. No entanto no mínimo silêncio que se entendia entre nós, queríamos correr, chegar e nos distanciar. Nosso silêncio sufoca.
sentia-me segura, vestia blusa branca. “a moda vem e vai/ fica dificil acompanhar/mas de blusinha branca/eu vou a qualquer lugar...”. comecei a botar em prática o que me propunha a fazer quando sai de casa, e quando decidi vir para essa casa. Comecei confiando em mim. Munindo-me do meu ego, obrigava-me a aceitar a morte que me sussurrava. Persistia, mesmo com a tola esperança sussurrando ser possível florescer vida, que as duras cascas das poucas sementes que nos ficaram podiam florcescer. A única vida que ainda pode nascer entre a gente é uma vida com cheiro de morte. Não consigo conviver por muito tempo com o odor fétido. Diferentemente da maioria das pessoas, eu não me acostumo, não sublimo o odor, tal ora torna-se inevitável a verdade da existência dos mortos. Então o procedimento é enterrar as carcaças.
Tenho a sensação de existir sacis invisível que nos observam. Pequeninos seres super poderosos. Ocorre-me que essas criaturinhas perversas, por vezes se entediam, não suportam o cinismo humano e decidem intervir no script da cena, para que haja contratempos que tornem a partitura mais interessante. Nossos papéis não estavam satisfazendo a audiência de nossos exigentes telespectadores. Contratempo inicial: muda-se a trilha sonora.
Nossa música tocou.
Maldito seja o refinado entendimento desses seres. Conseguiram que a cena se congelasse, pelo menos para mim e para ele, coisa que soubemos disfarçar bem com nossos movimentos não espontâneos. “a não ser a vontade de te encontrar/ O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar, ao seu lado,/Só pra ler, no seu rosto/ Uma mensagem de Amor...”, essa música nunca foi tão longa. Durante beijos já me pareceu tão curta.
Relativiso.
Aos poucos decidi que eu não seria a caça daquela noite.
Mesmo que não o cassasse, eu o conduziria para a morte, seduzindo-o com promessas
De vida.
Ele tentava me seduzir.
Jovens, copos, vitrolas, vinhos.
Calor. Corpos juntos, compartilhamento.
Pensamentos em fumaça. No amar, uma mensagem de amor, um amor que poderia ter existido.
Os sacis tiraram todos de cena. Não deixariam a estória passar sem que a cena aonde ele fica a sós com ela se concretize. Ai acontece.
A gente não sabia dizer como aquele beack havia sobrevivido naquele ambiente aonde todos fumavam o ar. Mas é verdade que havia um cigarro esperando para ser acesso e essa foi a deixa que os tais seres diabinhos nos deixaram, fazendo que ficássemos juntos, no quarto, fumando aquele. Trocamos pequenos devaneios, como geralmente fazem as pessoas chapadas. Perguntamos sobre as viagens do outro, dos planos. Mas o silêncio sufocava, e a esperança se remexia no túmulo. Eu lutava lutando dentro de mim, entre o papel de caça e caçador. Se eu calasse o silêncio com o selo de nossos corpos, fugiria de mim. Estaria dando vida ao que me implorava morte. Seria a caça de mim mesma. Rompi.
Por mais que muitas partes de mim gostariam de estar naquela situação por tempo indeterminado, continuando no jogo de sedução, de valorização do ego e da morte,
Segui meu instinto. Eu escolhi viver. Deparei-me com um ser forte dentro de mim. Abri a porta, deixei que ele morresse na fumaça. Eu sobreviveria.
Delicioso de se ler
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