segunda-feira, 30 de julho de 2012

(des)ilusão

Olhos nos olhos de mel
do amor que se faz salgado
em um mar imenso
de intenso amar.

Mãos em mãos,
vamos de mãos dadas
feito irmãos,
que no silêncio nada precisam explicar.

Lábios nos lábios
do bem querer
que se quer bem beijar.
Beijo que une
o que se vai, em breve,
separar.

Juntos somos tantos,
somos muitos,
e pouco tempo temos
para nos descobrir...

A lua está ai,
minguante,
feito alto falante grita;
noite vai chegar!

Estamos vivos,
muito vivos
nas lembranças que näo vamos,
nunca,
apagar.

O caminho é longo,
a distancia prolonga meu olhar.
Vejo coisas que näo existiram.

minha dor enfeita nosso amor...
       
               Pra que rimar?

sexta-feira, 25 de maio de 2012

desorganizemos

fora da ordem..
muita coisa anda fora da ordem.
fora do tempo, do compasso.
Quanta desafinação!

lembranças em formas de cores,
em tardes infinitas da infância...
tardes que agora se estendem entre sonhos
e noites mal dormidas,
noites de camisas impregnadas de ar-condicionado e de café.
Infância.
o tempo era muito mais confuso,
mas como a melodia era harmônica!

a musica de ontem, canta-me passarinhos,
os mesmos passarinhos que estendiam
aquelas tardes infinitas...
será que como nós, os passarinho passaram a se preocupar com a ordem?

se hoje há música,
é proveniente das buzinas e automóveis,
que se deslocam no espaço, diminuindo o tempo
entre as cores.
haverá musica na cerra elétrica?
na britadeira?

Agora a casa está demolida,
agora,
dos longos corredores,
dos escuros banheiros,
do cheiro de naftalina do armário,
dos azulejos de espirais amareladas,
das infiltrações em formas de flores,
 resta uma atmosfera de demolição,
bagunçada entre resquícios de lembrança
e de tijolos desfigurados.

passei, estava tudo no chão.
 é essa a ordem que se impõe...
a ordem da falta de tempo para se desprender do tempo e quebrar a ordem imposta.

Abandonemos essas camisas impregnada de ar-condicionado e café,
desliguemos as máquinas
e façamos um esforço para lembrar..
a casa continua de pé,
em algum lugar ainda cantam os mesmos
passarinhos das tardes infinitas da infância.
Em algum lugar ainda existe a harmônica desordem almejada.
desorganizemos!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"eu rabisco o sol que a chuva apagou..."

Maresia hoje um pouco mais úmida,
igualmente salgada.
Tudo fica diferente e poético
quando a cidade quente,
cheia de sol, sal e gente, toma banho.
Ai, quando a chuva passa,
deixa uma timidez no ar que
nitidamente se expressa no nublado do céu.

Uma massa de nostalgia paira no horizonte.
(Nostalgia para mim sempre teve a cor cinza das nuvens
depois de choverem).
Lá vem, lá vem, lá vem de novo...                                                                                
A onda que quebra tão conhecidamente na areia.
Vem como que me lembrando que esse dia de hoje
embalado pelo vento, ficará nesse mesmo marasmo
de sucessivas idas e voltas.

Da última vez que a cidade se banhou, lembrei de hoje.
E amanhã, se o céu continuar com sua excêntrica mania de aqui lavar,
sei que verei, lá no horizonte, a nostalgia vindo me saldar.
Sei que ela virá de mãos dadas com um dia de hoje.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

espelho da vida-morte-vida

Tambores.
Hoje eu sai para me encarar.
Meu coração bateu.
Tambores.
Sempre é assim,
Primeiro sente-se o cheiro, depois ver-se a caça,
Ou o caçador, não sei bem qual dos papéis estava representando naquela noite,
O fato é que farejei o rastro- nas pessoas que chegavam- que ele estava por vir.
 Sim,ele veio, meu olfato de fêmea não me enganou. Tenho tentado acreditar mais nos meus sentidos.
Meia palavra cantada. Sorrisos forçados. Ou não? Eram tão verdadeiramente sínicos e falsos nossos sorrisos que saiam espontâneos. Ambos fingiam uma felicidade, um bem estar, e um perfeito esquecimento da ferida que há pouco nos sangrava silenciosamente. Transparecíamos como se houvesse transcorrido muito mais tempo no tempo da  virada de uma única pagina do calendário.
Distância.
Um momento de reflexão, intuição, e impulso me vêem concomitantes, em poucos segundos. A decisão deve ser tomada. Outra coisa que venho aprendendo é que, definitivamente, não temos como fugir das escolhas. Temos que optar por alguma coisa, e chegar até o final, mesmo que depois nós tivermos que voltar, com mais frio, fome e feridas
Optei por me desafiar.
Hoje sai de casa para me encarar.
Quando dei por mim, era transporta sobre duas rodas,
Sentada no varão da bicicleta...
...seu nariz no meu cangote, seu olhar no meu decote.
Trocamos palavras como antes. Naquele momento realmente voltei ao nosso passeio no passado, pelas ruas do centro da cidade. Pedaladas por entre muros encardidos. “A vida é uma oportunidade para aprender a amar”, continuava escrito.  ele sempre lia essa frase quando voltava para casa, quando  prestava atenção. Então, quando se lembrava, lembrava-se de mim.
Senti que pedalava lentamente, como se quisesse estender aquele momento que me tinha assim tão perto. No entanto no mínimo silêncio que se entendia entre nós, queríamos correr, chegar e nos distanciar. Nosso silêncio sufoca.

sentia-me segura, vestia blusa branca. “a moda vem e vai/ fica dificil acompanhar/mas de blusinha branca/eu vou a qualquer lugar...”.   comecei a botar em prática o que me propunha a fazer quando sai de casa, e quando decidi vir para essa casa. Comecei confiando em mim. Munindo-me do meu ego, obrigava-me a aceitar a morte que me sussurrava. Persistia, mesmo com a tola  esperança sussurrando ser possível florescer vida, que as duras cascas das poucas sementes que nos ficaram podiam florcescer. A única vida que ainda pode nascer entre a gente é uma vida com cheiro de morte. Não consigo conviver por  muito tempo com o odor fétido. Diferentemente da maioria das pessoas, eu não me acostumo, não sublimo o odor, tal ora torna-se inevitável a verdade da existência dos mortos. Então o procedimento é enterrar as carcaças.
Tenho a sensação de existir sacis invisível que nos observam. Pequeninos seres  super poderosos. Ocorre-me que essas criaturinhas perversas, por vezes se entediam, não suportam o cinismo humano e decidem intervir no script da cena, para que haja contratempos que tornem a partitura mais interessante. Nossos papéis não estavam satisfazendo a audiência de nossos exigentes telespectadores. Contratempo inicial: muda-se a trilha sonora.
 Nossa música tocou.
Maldito seja o refinado entendimento desses seres. Conseguiram que a cena se congelasse, pelo menos para mim e para ele, coisa que soubemos disfarçar bem com nossos movimentos não espontâneos. “a não ser a vontade de te encontrar/ O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar, ao seu lado,/Só pra ler, no seu rosto/ Uma mensagem de Amor...”, essa música nunca foi tão longa. Durante beijos já me pareceu tão curta.
Relativiso.
Aos poucos decidi que eu  não seria a caça daquela noite.
Mesmo que não o cassasse, eu o conduziria para a morte, seduzindo-o com promessas
De vida.
 Ele tentava me seduzir.
Jovens, copos, vitrolas, vinhos.
Calor. Corpos juntos, compartilhamento.
Pensamentos em fumaça. No amar, uma mensagem de amor, um amor que poderia ter existido.
Os sacis tiraram todos de cena. Não deixariam a estória passar sem que a cena aonde ele fica a sós com ela se concretize. Ai acontece.
A gente não sabia dizer como aquele beack havia sobrevivido naquele ambiente aonde todos fumavam o ar. Mas é verdade que havia um cigarro esperando para ser acesso e essa foi a deixa que os tais seres diabinhos nos deixaram, fazendo que ficássemos juntos, no quarto, fumando aquele. Trocamos pequenos devaneios, como geralmente fazem as pessoas chapadas. Perguntamos sobre as viagens do outro, dos planos. Mas o silêncio sufocava, e a esperança se remexia no túmulo. Eu lutava lutando dentro de mim, entre o papel de caça e caçador. Se eu calasse o silêncio com o selo de nossos corpos, fugiria de mim. Estaria dando vida ao que me implorava morte. Seria a caça de mim mesma. Rompi.
Por mais que muitas partes de mim gostariam de estar naquela situação por tempo indeterminado, continuando no jogo de sedução, de valorização do ego e da morte,
Segui meu instinto. Eu escolhi viver. Deparei-me com um ser forte dentro de mim. Abri a porta, deixei que ele morresse na fumaça. Eu sobreviveria.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

(eu) trilhas

Vida
Que me guadas?
Que me aguarda?
Para onde tuas trilhas
irregulares me levarão?
Depois de pés cansados,
Pés descalçados,
Corações amargurados...

Cuidado!
Ó o buraco pra não cair.
Ui! Me pegou um espinho
Mas que belas as flores da estrada.
Trilha sonora não poderia ser outra...

Gosto da textura e do contato
com esse sono,
ora lamacento
ora pedregoso.

Gosto do jeito com que o medo do escuro
me abate,
Queda do meu eu em vias desconhecidas
 de mim.

Subi  no último galho
Do cajueiro
E visualizei a praia mais bela.
Mas quem vem lá?

Na multidão não enxergo ninguém.
Fisionomias anônimas.
Segue-se o anonimato
E a pergunta na bifurcação:
Aonde essa trilha levará?


abscreção

Vagueio pelas ruas descalço.
Já não me importo em pisar nos esgotos
Nem me importa a sujeira que me exala dos poros.
Estou cheio.
Sinto-me empanzinado, sinto enjôo.. qualquer hora dessas caio.
Vomito, choro, escarro, grito, defeco!
Contudo o asco dentro de mim só aumenta.
Sinto que vou explodir.
Em vez de excretar eu absorvo.
Absorvo o álcool que me dilata as entranhas,
Absorvo essa luz branca que me queima a retina,
Absorvo essa comida enlatada,
Meus poros absorvem o odor fétido da cidade.
Quero descer.
Sinto que vou explodir.
Amanhã começo a dieta.
Na próxima parada, desce.
Está decidido, amanhã acordarei no mato,
Aonde eu possa dormir em silêncio de mim. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Jornada

Vida
Ida
Vinda
Idas e vindas
Vindas e vias
Vias e idas.
Vias que levam,
Vias que trazem,
Vidas que passam em idas,
Vindas que trazem vidas.
A vida é diva
Divã.
Quero deitar-me e nao levantar mais.
Havia na vinda,
Vi a na ida.
 Chamei a para tomar um café
E ele se apegou, ficou.
Pergunto,
Por quanto tempo bem-vida?